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Esponjas Emocionais

Tenho a impressão que esse ano começou bem e em algum momento começou a escorregar pelas minhas mãos.

Todos os dias eu tento focar a minha mente nas coisas positivas então posso falar que consegui salvar algumas partes desse emaranhado de coisa ruim. Eu não sou o tipo de pessoa que culpa o ano pelas coisas e sei que a culpa é provavelmente minha. Apesar de ter sido claramente um ano esquisito pra todo mundo.

Geralmente eu me fortaleço de um lado e enfraqueço de outro. Meu objetivo na vida é achar um equilíbrio. Eu comentei esses dias que queria me recuperar das coisas como me recupero de uma refeição. Quando eu como até não conseguir nem me mover e penso que nunca mais vou comer de novo e depois de 1 hora estou com fome e pronta pra comer mais.

Eu me desgasto muito com as coisas. Às vezes converso com alguém pela manhã e levo um dia inteiro pra me recuperar daquilo. Não importa se a pessoa falou algo sobre mim ou se falou algo dela mesma. Eu tenho que fazer um esforço enorme pra lidar com meus próprios pensamentos e emoções sem entrar em colapso e mesmo assim vivo à beira da loucura. Eu não sei fazer nada de maneira superficial. Minha cabeça entra fundo em tudo e absorve como se tivesse vindo de mim, mesmo quando não vem e não tem nada a ver comigo. Se eu vejo alguma tragédia eu fico arrasada por tempo indeterminado como se tivesse acontecido com alguém próximo a mim. Chego até a ficar doente às vezes.

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Quando você é uma esponja emocional o que você sente pode ser seu, de outra pessoa ou uma associação. Começa a ficar tudo muito confuso e fora de controle.

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Quando a pessoa não aprende a centrar, fundamentar e controlar as emoções ela acaba virando uma escrava delas porque não consegue se abster de sentir todas as coisas (boas e ruins).

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Mas você não precisa sentir todas essas coisas o tempo todo. Quando todas essas emoções estão controladas e se tem domínio sobre elas, essa empatia excessiva deixa de ser um fardo e deixa de te sobrecarregar.

Obviamente eu ainda não cheguei nesse estágio.

Uma esponja emocional tem uma sensibilidade enorme em relacionamentos amorosos que pode ser esmagadora e prejudicial por não saber dosar direito as coisas.

Eu já falei muito sobre vampiros psíquicos que são pessoas que não querem ver a outra muito bem e sugam tudo de bom e qualquer vestígio de felicidade e energia boa dela. Esponjas emocionais são as que mais sofrem nas mãos dos vampiros psíquicos e são o contrário deles.

Ao entrar em contato com coisas positivas o corpo assimila e prospera mas infelizmente não tem como absorver só tudo que é belo. O que predomina acaba sendo o que é negativo e te deixa devastado. Ansiedade crônica, depressão e stress são coisas que podem te transformar em uma esponja emocional porque esgotam todas suas defesas. Você começa a absorver para si todas as dores dos outros parecidas com as suas.

Eu sempre brinco que sou uma pessoa “sumida” porque eu realmente sumo. É muito difícil ser meu amigo porque eu tenho extrema dificuldade em manter contato com os outros. Isso não quer dizer que eu não me importe. Essas coisas que todo mundo fala “quem se importa vai atrás”, “quem tem saudade procura”, e por aí vai, não se aplicam a mim. As pessoas se importam de maneiras diferentes com as outras. Eu posso passar muito tempo sem ver e sem conversar com alguém que não vai mudar nada. Jamais viraria as costas ou deixaria de responder quem precisa da minha ajuda. Mas eu não sou uma pessoa presente. Eu já me conformei e aprendi na vida que por conta disso não vou ter quase ninguém por perto. Pelo menos eu sei que quem permanece comigo realmente gosta de mim. Eu preciso muito do meu espaço. Parece ficção mas se eu vou em um lugar cheio às vezes eu preciso de um mês pra me recompor e fazer aquilo de novo. As pessoas aos poucos cansam de te chamar pra fazer as coisas. Aos poucos vão desistindo de ti. Mas não tem como sacrificar a tua sanidade mental pra ter mais pessoas ao teu redor. Pessoas que não te compreendem.

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Eu não acredito em resoluções de ano novo mas eu sei que mais um ano desses eu não aguento. Minha meta pessoal além de cuidar cada vez mais da minha saúde é tentar me manter centrada nesse mundo tóxico e emocionalmente sobrecarregado.

 

Até a próxima.

Monster – Anime review

Oi.

Comentei esses dias no Twitter que iria começar a indicar alguns animes/mangás que gosto muito. Estou por fora dos animes atuais porque faz alguns anos que o único mangá que continuo acompanhando é Berserk (meu favorito). Porém, hoje não vou falar de Berserk. Até porque o anime é extremamente ruim e não transmite nada do que é a história de verdade (encontrada no mangá que até hoje ainda é lançado) e acredito que as pessoas tenham mais facilidade em assistir um anime do que ler os mangás. Por isso resolvi falar de Monster.

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Monster – O mangá de Naoki Urasawa foi publicado no Japão entre 1994 e 2001 e fez tanto sucesso que ganhou uma adaptação em anime com 74 episódios que foram exibidos entre 2004 e 2005. Sempre prefiro mangás por contarem de forma muito mais fiel as histórias sem muita enrolação. Mas Monster é um dos poucos em que o anime permanece fiel do começo ao fim. É um suspense policial do gênero seinen (que é voltado para o público adulto masculino) que gira em torno de um neurocirurgião (Dr. Tenma) que é bastante respeitado no hospital em que trabalha e pelo fato de suas cirurgias serem sempre importantes e bem sucedidas, também é o favorito do diretor do hospital. Já que eleva a reputação do mesmo. Graças a isso e ao seu futuro promissor, ele também é noivo da filha do diretor. Por ser o cirurgião mais aclamado e ter sucesso em cirurgias de alto risco, seus pacientes eram sempre pessoas importantes e era obrigação dele dar prioridade a eles para aumentar a reputação do hospital. Mesmo sendo uma pessoa boa e honesta e não concordando muito com essa política, ele se submetia a isso para continuar na equipe principal de cirurgia. Dr. Tenma começou a se questionar mais quando foi confrontado por uma mulher que perdeu o marido e o culpou dizendo que se ele tivesse realizado a cirurgia ele não teria morrido. Depois disso, Tenma começa a questionar seus valores éticos e morais e é colocado em uma situação em que precisa escolher entre salvar a vida de um menino baleado na cabeça em coma e o prefeito da cidade que teve um derrame. Ele decidiu salvar a vida do menino e o prefeito acabou morrendo pois foi operado por outro cirurgião. O diretor do hospital o rebaixou do cargo e disse que ele nunca mais conseguiria subir na carreira pois tinha humilhado o hospital. Perdeu a noiva também (filha do diretor) além do cargo de confiança. O menino e a sua irmã gêmea (que estava em choque) eram sobreviventes de um massacre horrível que havia acontecido em uma mansão. Misteriosamente, os irmãos desaparecem e toda a equipe médica (incluindo o diretor) que prejudicaram a carreira do médico é assassinada. Dr. Tenma virou suspeito na época (deixando o detetive Lunge totalmente obcecado por ele durante todo o anime) mas mesmo assim conseguiu assumir o cargo de cirurgião-chefe. Depois de 10 anos, alguns assassinatos em série estavam ocorrendo por toda a Alemanha e um suspeito do caso chega ao hospital para ser operado. Em uma noite, o suspeito foge amedrontado por alguma coisa e Dr. Tenma o segue. Em seguida vê o menino que salvou 10 anos atrás (só que crescido agora) matar o suspeito a tiros e sumir novamente sem deixar rastros.

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A suspeita dos assassinatos de 10 anos atrás recai sobre ele e também dos atuais. Ele vira um foragido da lei sendo procurado como serial killer. Começa então a dedicar sua vida a encontrar Johan para provar sua inocência. Além disso ele carrega uma culpa enorme por salvar uma vida que não deveria ter sido salva e quer acabar com ela com as próprias mãos. Na medida que ele vai se aprofundando no caso e conhecendo pessoas que já passaram pela vida de Johan, ele vai descobrindo mais coisas horríveis e de algo muito mais macabro por trás disso tudo.

O anime é extremamente violento. Porém, de forma psicológica. Todos os personagens são realistas e os acontecimentos e fatos históricos que aconteceram na época são representados de forma muito fiel. O anime ocorre na Alemanha na época da queda do muro de Berlim. Não existe humor, romances desnecessários e nem clichês em Monster. Johan é um psicopata clássico muito bem construído e em vários momentos você se pega sendo cativado por ele. Me lembrou muito o Griffith de Berserk em alguns aspectos. Aparência angelical e ideias perturbadoras. Não teria como eu indicar o anime sem essa introdução. E também não posso ir muito além disso pra não estragar. Está entre meus animes favoritos. É extremamente genial, perturbador e de uma complexidade psicológica gigantesca.

No começo do anime você já dá de cara com a passagem bíblica sobre a chegada do anticristo:

“Vi, então, levantar-se do mar uma Fera que tinha dez chifres e sete cabeças; sobre os chifres, dez diademas; e nas suas cabeças, nomes blasfematórios. A Fera que eu vi era semelhante a uma pantera: os pés como os de urso e as faces como as de leão. Deu-lhe o Dragão o seu poder, o seu trono e a sua autoridade. Uma das suas cabeças estava como que ferida de morte, mas essa ferida de morte fora curada. E todos, pasmados de admiração, seguiram a Fera e prostaram-se diante do Dragão, porque dera o seu prestígio à Fera, e prostaram-se igualmente diante da Fera, dizendo: “Quem é semelhante Fera e quem poderá lutar com ela?”

A construção dos personagens é feita com muito cuidado e todos eles são muito profundos. Muitos deles com problemas psicológicos gravíssimos. Os 74 episódios passam voando e nunca ficam entediantes. A trilha sonora é muito boa e combina com todos os elementos da trama. Você se sente cada vez mais envolvido e não consegue parar de assistir. Recomendo muito o anime e o mangá. Principalmente pra quem não está acostumado com eles. Vai se surpreender.

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Beijos.

 

Sobre amor e relacionamentos

Acordei do nada no meio da madrugada pra variar e tive um sonho com meu avô. Eu morei com meus avós a minha infância inteira e sempre fui muito apegada a eles. Desde que meu avô faleceu a vida virou um borrão pra mim. Nos meus sonhos ele está sempre vivo e ainda procuro ele quando vou na casa da minha vó (que ainda está viva). Faz 4 anos já e pra mim ainda é difícil ir lá. Isso é terrível porque quero passar mais tempo com ela e tenho um bloqueio enorme pra conseguir superar isso. Totalmente egoísta da minha parte. Se eu não supero imagina ela? Mas eu não vim falar de morte, vim falar de amor e relacionamentos. Meus avós ficaram juntos a vida inteira e, pelo menos desde que eu nasci, nunca presenciei uma briga feia ou alguma dificuldade entre os dois. Foram quase 70 anos juntos, 11 filhos. Tenho certeza que se algum dia existiu alguma eles conversaram, se entenderam e superaram. As coisas não duram mais. As pessoas não têm mais paciência de crescer e cuidar de um relacionamento. Elas estão preguiçosas. Quando as dificuldades começam a aparecer simplesmente desistem e procuram outro. Quando eu penso em relacionamento eu sempre lembro dos meus avós. Eu sou do tipo de pessoa que sempre quis um amor pra vida toda. Meu vô sempre acordou mais cedo pra fazer o café da manhã pra minha vó e uma coisa que eu nunca esqueço é que no fim da vida, quando ele já estava completamente fora desse plano por causa da doença horrível que é Alzheimer, teve uma manhã que ele levantou cedo e escapou pra cozinha (escapou porque já estava em um estágio que não podia fazer mais nada sozinho), botou a mesa pros dois, a xícara especial dela, o pão como ela gosta, as coisinhas dele. Mesmo não lembrando de mais nada quase, dela ele nunca esqueceu. Nem desses detalhes. Os dois estavam sempre juntos, sempre sentavam um ao lado do outro pra assistir tv de mãos dadas. Mesmo quando era pra assistir novela que ele não gostava mas minha vó sim, ou pra assistir jogo e noticiários que ele gostava e ela não. Companheirismo é isso, né? Às vezes a gente até pede desculpa mesmo quando não tem culpa porque o amor é maior que o ego. Eu me pergunto se antigamente as pessoas se esforçavam mais pra dar certo porque casamento era algo muito mais permanente do que hoje em dia e divórcio era meio que um absurdo. Logicamente não acho que quando duas pessoas estão realmente infelizes elas não devam se separar. Mas será que as pessoas estão esquecendo o que é o amor? O que é crescer junto com alguém e aceitar todos os defeitos da pessoa da mesma forma que aceita suas qualidades? O que mais vejo por aí são pessoas que deixam de gostar das outras pelo mesmo motivo que começaram. Às vezes nem por um defeito, mas por uma coisa que no começo era atraente e no fim ficou irritante e insuportável. Todo mundo que se sente incompleto busca em outra pessoa algo que preencha isso. Depois de um tempo, quando passa o calor da paixão e adrenalina do começo do relacionamento e as coisas se acalmam, as pessoas se frustram por não se sentirem completas ainda e culpam a outra. Como se fosse obrigação da outra preencher um vazio. Como se fosse ela a culpada pela sua infelicidade. E assim já sai a procura de algo novo e mais satisfatório que proporcione aquela falsa sensação de novo. Se sentir completo é obrigação de cada um. É algo que só a própria pessoa pode fazer por ela mesma. Se você joga essa responsabilidade para os outros, todos os relacionamentos que tiver serão fracassados e você vai entrar em um loop infinito de uma procura sem fim. Será que antes as pessoas se esforçavam mais ou será que hoje as pessoas não se esforçam nem um pouco? É fato que as pessoas estão cada vez mais perdidas e tristes. E isso dificulta muito. O amor é uma plantinha que tem que regar e cuidar. E cuidar muito bem pra não murchar. O amor é lealdade, é paciência, é respeito, é tolerância, é persistência, é desistir de ter controle, é fácil, é insuportável, é comprometimento. Se ele não for tudo isso não serve pra nada. Não é suficiente. Uma pessoa tem vários lados e mesmo vivendo uma vida inteira com ela é possível não conhecer todos. Dá pra se apaixonar várias vezes pela mesma pessoa redescobrindo ela sempre. Se encantar por algum detalhe novo que ainda era desconhecido. Quando duas pessoas se amam e estão realmente focadas em ficar juntas não existe nada que atrapalhe. É importante não deixar morrer o romance ao longo dos anos, se preocupar com o bem estar da pessoa e comemorar sempre com ela suas vitórias e estar ali para apoiá-la nas derrotas. É importante saber a diferença entre a hora de dar colo e a hora de falar; é importante saber escutar e confortar. Dialogar é tão essencial quanto conseguir ficar quietinho só sentindo a presença da pessoa sem falar uma palavra. Ser envolvido por ela e envolvê-la. Ao mesmo tempo que abrir muito o coração pra alguém é dar o poder pra esse alguém te machucar, é impossível que alguém te ame verdadeiramente sem essa abertura. Sem saber teus medos e falhas. Sem conhecer quem é você realmente. A pessoa precisa amar a outra pelo que ela é e não pela imagem que criou e idealizou dela na própria cabeça. Poucas coisas são mais aterrorizantes e prazeirosas do que amar e ser amado genuinamente. E quando real sempre vai valer o risco.

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Insônia

Eu estava aqui tentando lembrar como é dormir tranquilamente. Desde criança quando eu ainda morava com meus avós (era só eu e minha mãe) eu já tinha medo do escuro. Lembro que quando ela saía de noite eu ia lá me enfiar no meio deles, de medo. Eu dormia no mesmo quarto que ela. Sempre tive pesadelos e nunca consegui dormir com as luzes totalmente apagadas.
Até hoje preciso de tv, abajur ou da luz do computador. Acho que isso foi agravando com o tempo. Nunca me acostumei a acordar cedo, apesar de sempre ter estudado de manhã. Eu lembro que minha mãe me vestia enquanto eu dormia e me colocava na van pra ir pra escola. Quando saímos da casa dos meus avós eu ganhei meu primeiro quarto sozinha, não sei se foi bom ou ruim. Depois dessa época tive que me acostumar a dormir sozinha sem minha mãe (que começou a dormir com meu padrasto) e sem meus avós que não moravam mais comigo. Lembro que eu fazia eles dormirem de porta aberta e eu deixava a minha aberta também (era uma de frente pra outra). Acho que lá pelos 15 anos comecei a tomar remédios para dormir. Nessa época eu comecei a presenciar todos os tipos de distúrbios do sono. Eu via coisas, tinha paralisia do sono, sonhos lúcidos e tudo de ruim que pode acontecer quando a pessoa não consegue dormir bem. Uma vez fiquei tão traumatizada com uma paralisia do sono que tive na casa da minha prima (que estava em reforma e sem porta no quarto) que nunca mais consegui deixar nenhuma porta aberta. Até hoje tenho pânico de portas abertas.

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Uma coisa que sempre ouvi e escuto até hoje é pra tentar ficar sem dormir o máximo possível pra assim regular o sono ou cansar bastante durante o dia pra chegar à noite e dormir. Nunca adiantou pra mim. Posso estar com o corpo e a mente completamente em estado de exaustão que não adianta nada. Houve um tempo em que em certos períodos do dia eu conseguia dormir com mais facilidade, como depois de amanhecer e de tarde. Já que o dia estava claro o suficiente pra eu não precisar de nenhuma luz artificial pra não ficar no escuro. Eu nunca consegui um sono de qualidade durante a noite, mesmo com remédios o meu sono “não pega no tranco”. É o período que eu mais tenho pesadelos e paralisias do sono. Eu praticamente acordo de hora em hora desesperada com alguma coisa. Nunca dura. Se eu dormir antes das 2 da manhã eu vou acordar sem sono algum no máximo às 3 da manhã (horário amaldiçoado).

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Já tomei tudo quanto é tipo de remédio, inclusive indutores de sono e sedativos e sempre acordo umas 2 horas depois quando o efeito passa. Isso quando não dá efeito contrário e ataca minha ansiedade de uma forma monstruosa. Hoje em dia a maioria nem faz mais efeito. Já passei pela clínica do sono algumas vezes e fiz vários exames procurando uma explicação. Já tentei coisas como chás, apometria, acupuntura, meditação, magnésio e melatonina. Já tentei também músicas que estimulam o sono. Já tentei magia negra. Bruxaria. Exorcismo.

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Não consigo mais dormir muitas horas seguidas independente do horário. O sono é sempre conturbado e acordo muitas vezes. Não preciso falar o quanto o sono é importante e essencial na vida e na saúde (mental e física) da pessoa e que o horário certo para se dormir é infelizmente à noite. Não digo certo por ser imposto e sim pela saúde do corpo mesmo. A pessoa começa a ter vários problemas depois de uma vida trocando o dia pela noite. Não é nada saudável. E eu não estou falando de dormir o dia todo e não ter sono à noite, estou falando em não ter sono nunca. E quando ele vem é frágil, não dura e traz perturbações.

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Não importa quantas horas eu durma, sempre acordo com a sensação de não ter dormido nada. Vivo num estado constante entre ter muito sono pra ficar acordada mas não o suficiente para dormir. Acho que é uma das piores prisões que já me enfiei.

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Quando eu tinha só depressão era um pouco mais fácil dormir, tudo era melhor do que ficar acordado, não que hoje não seja, mas hoje tem a ansiedade de brinde pra fazer o inferno acontecer na minha cabeça sempre que encosto ela no travesseiro. Acho que eu seria outra pessoa hoje se meu sono fosse normal. É difícil manter o humor estável, a sanidade, a vontade de viver e até se alimentar bem quando o sono não é bom. Eu fico pensando muito por horas, o cansaço é cada vez pior. Irritabilidade alta sempre. Hoje em dia parece que é um cansaço que nem se eu dormisse por 5 mil anos passaria. Parece um ciclo sem fim. Um pensamento atropela o outro. Penso em tudo e em nada ao mesmo tempo. É tanta coisa passando pela cabeça que não dá pra diferenciar uma da outra. E é assim toda vez que tento dormir. É desesperador. A insônia pra mim é um tipo de tortura. Pra quem não sabe, a insônia não é só não conseguir dormir. É também não conseguir manter um sono contínuo e acordar o tempo inteiro. Um cérebro insone é um dos mais paranoicos e criadores de teorias da conspiração (principalmente aquelas que conspiram contra si mesmo). Eu evito totalmente deitar e tentar dormir sem estar completamente esgotada e fechando meus olhos. Isso é tentar suicídio pra mim. A gente pode se matar várias vezes sem morrer durante toda a vida. Quando eu deito pra dormir e em uns 30 minutos ainda não consegui eu já logo procuro algo pra fazer pra não entrar na espiral do horror que a insônia causa. Na maioria das vezes falho e não só entro como mergulho nela de cabeça.

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Acordar é meio que uma afronta, é sempre horrível. Talvez por isso eu tenha tanta dificuldade pra dormir, inconscientemente. Pra não ter que acordar depois. Nosso cérebro é uma armadilha e nos prega peças o tempo inteiro. Quando eu tenho compromisso aí mesmo que nem com uma porrada na cabeça eu durmo. As horas passam rápido e devagar ao mesmo tempo e o desespero em ver elas passarem e ter cada vez menos tempo pra dormir é quase que viciante.

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O meu sono é tipo um gato arisco, o melhor a se fazer é não pensar nele, respeitar o espaço e ignorá-lo. Pra daí sim ele vir até mim quando sentir que está na hora. Quanto mais pensar e tentar chegar nele, mais ele vai se afastar. Eu já desisti de muitas coisas pra poder dormir. Quem dorme mal entende e valoriza muito o sono quando ele vem. Tem que agarrá-lo com todas as forças. Quem deita a cabeça no travesseiro e simplesmente dorme não sabe a sorte que tem (ou sabe, mas não valoriza por ser algo natural). Espero um dia ter essa sensação. Acho que pode transformar a minha vida. Tem gente que diz “dormir é tão bom que nem acredito que é de graça”, pra mim custa bem caro e pago duas vezes. Uma tentando dormir e outra acordando. Se eu pudesse escolher um superpoder eu escolheria sem dúvida o poder de controlar o sono, pra conseguir somar ele e guardar pra usar depois. Pra conseguir ter noites tranquilas. Sem interrupções, pesadelos e assombrações. Por enquanto a cura que eu mais acredito é a sugerida pelo Hitchcock. Tem o vídeo lá em cima do post.

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Já fiz um post sobre paralisia do sono. Link aqui.

E outro sobre sonhos aqui.

 

Tabacaria – Fernando Pessoa

Oi, hoje só quero deixar um poema aqui.

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê –
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.”

Álvaro de Campos, 15-1-1928