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Sobre amor e relacionamentos

Acordei do nada no meio da madrugada pra variar e tive um sonho com meu avô. Eu morei com meus avós a minha infância inteira e sempre fui muito apegada a eles. Desde que meu avô faleceu a vida virou um borrão pra mim. Nos meus sonhos ele está sempre vivo e ainda procuro ele quando vou na casa da minha vó (que ainda está viva). Faz 4 anos já e pra mim ainda é difícil ir lá. Isso é terrível porque quero passar mais tempo com ela e tenho um bloqueio enorme pra conseguir superar isso. Totalmente egoísta da minha parte. Se eu não supero imagina ela? Mas eu não vim falar de morte, vim falar de amor e relacionamentos. Meus avós ficaram juntos a vida inteira e, pelo menos desde que eu nasci, nunca presenciei uma briga feia ou alguma dificuldade entre os dois. Foram quase 70 anos juntos, 11 filhos. Tenho certeza que se algum dia existiu alguma eles conversaram, se entenderam e superaram. As coisas não duram mais. As pessoas não têm mais paciência de crescer e cuidar de um relacionamento. Elas estão preguiçosas. Quando as dificuldades começam a aparecer simplesmente desistem e procuram outro. Quando eu penso em relacionamento eu sempre lembro dos meus avós. Eu sou do tipo de pessoa que sempre quis um amor pra vida toda. Meu vô sempre acordou mais cedo pra fazer o café da manhã pra minha vó e uma coisa que eu nunca esqueço é que no fim da vida, quando ele já estava completamente fora desse plano por causa da doença horrível que é Alzheimer, teve uma manhã que ele levantou cedo e escapou pra cozinha (escapou porque já estava em um estágio que não podia fazer mais nada sozinho), botou a mesa pros dois, a xícara especial dela, o pão como ela gosta, as coisinhas dele. Mesmo não lembrando de mais nada quase, dela ele nunca esqueceu. Nem desses detalhes. Os dois estavam sempre juntos, sempre sentavam um ao lado do outro pra assistir tv de mãos dadas. Mesmo quando era pra assistir novela que ele não gostava mas minha vó sim, ou pra assistir jogo e noticiários que ele gostava e ela não. Companheirismo é isso, né? Às vezes a gente até pede desculpa mesmo quando não tem culpa porque o amor é maior que o ego. Eu me pergunto se antigamente as pessoas se esforçavam mais pra dar certo porque casamento era algo muito mais permanente do que hoje em dia e divórcio era meio que um absurdo. Logicamente não acho que quando duas pessoas estão realmente infelizes elas não devam se separar. Mas será que as pessoas estão esquecendo o que é o amor? O que é crescer junto com alguém e aceitar todos os defeitos da pessoa da mesma forma que aceita suas qualidades? O que mais vejo por aí são pessoas que deixam de gostar das outras pelo mesmo motivo que começaram. Às vezes nem por um defeito, mas por uma coisa que no começo era atraente e no fim ficou irritante e insuportável. Todo mundo que se sente incompleto busca em outra pessoa algo que preencha isso. Depois de um tempo, quando passa o calor da paixão e adrenalina do começo do relacionamento e as coisas se acalmam, as pessoas se frustram por não se sentirem completas ainda e culpam a outra. Como se fosse obrigação da outra preencher um vazio. Como se fosse ela a culpada pela sua infelicidade. E assim já sai a procura de algo novo e mais satisfatório que proporcione aquela falsa sensação de novo. Se sentir completo é obrigação de cada um. É algo que só a própria pessoa pode fazer por ela mesma. Se você joga essa responsabilidade para os outros, todos os relacionamentos que tiver serão fracassados e você vai entrar em um loop infinito de uma procura sem fim. Será que antes as pessoas se esforçavam mais ou será que hoje as pessoas não se esforçam nem um pouco? É fato que as pessoas estão cada vez mais perdidas e tristes. E isso dificulta muito. O amor é uma plantinha que tem que regar e cuidar. E cuidar muito bem pra não murchar. O amor é lealdade, é paciência, é respeito, é tolerância, é persistência, é desistir de ter controle, é fácil, é insuportável, é comprometimento. Se ele não for tudo isso não serve pra nada. Não é suficiente. Uma pessoa tem vários lados e mesmo vivendo uma vida inteira com ela é possível não conhecer todos. Dá pra se apaixonar várias vezes pela mesma pessoa redescobrindo ela sempre. Se encantar por algum detalhe novo que ainda era desconhecido. Quando duas pessoas se amam e estão realmente focadas em ficar juntas não existe nada que atrapalhe. É importante não deixar morrer o romance ao longo dos anos, se preocupar com o bem estar da pessoa e comemorar sempre com ela suas vitórias e estar ali para apoiá-la nas derrotas. É importante saber a diferença entre a hora de dar colo e a hora de falar; é importante saber escutar e confortar. Dialogar é tão essencial quanto conseguir ficar quietinho só sentindo a presença da pessoa sem falar uma palavra. Ser envolvido por ela e envolvê-la. Ao mesmo tempo que abrir muito o coração pra alguém é dar o poder pra esse alguém te machucar, é impossível que alguém te ame verdadeiramente sem essa abertura. Sem saber teus medos e falhas. Sem conhecer quem é você realmente. A pessoa precisa amar a outra pelo que ela é e não pela imagem que criou e idealizou dela na própria cabeça. Poucas coisas são mais aterrorizantes e prazeirosas do que amar e ser amado genuinamente. E quando real sempre vai valer o risco.

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Insônia

Eu estava aqui tentando lembrar como é dormir tranquilamente. Desde criança quando eu ainda morava com meus avós (era só eu e minha mãe) eu já tinha medo do escuro. Lembro que quando ela saía de noite eu ia lá me enfiar no meio deles, de medo. Eu dormia no mesmo quarto que ela. Sempre tive pesadelos e nunca consegui dormir com as luzes totalmente apagadas.
Até hoje preciso de tv, abajur ou da luz do computador. Acho que isso foi agravando com o tempo. Nunca me acostumei a acordar cedo, apesar de sempre ter estudado de manhã. Eu lembro que minha mãe me vestia enquanto eu dormia e me colocava na van pra ir pra escola. Quando saímos da casa dos meus avós eu ganhei meu primeiro quarto sozinha, não sei se foi bom ou ruim. Depois dessa época tive que me acostumar a dormir sozinha sem minha mãe (que começou a dormir com meu padrasto) e sem meus avós que não moravam mais comigo. Lembro que eu fazia eles dormirem de porta aberta e eu deixava a minha aberta também (era uma de frente pra outra). Acho que lá pelos 15 anos comecei a tomar remédios para dormir. Nessa época eu comecei a presenciar todos os tipos de distúrbios do sono. Eu via coisas, tinha paralisia do sono, sonhos lúcidos e tudo de ruim que pode acontecer quando a pessoa não consegue dormir bem. Uma vez fiquei tão traumatizada com uma paralisia do sono que tive na casa da minha prima (que estava em reforma e sem porta no quarto) que nunca mais consegui deixar nenhuma porta aberta. Até hoje tenho pânico de portas abertas.

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Uma coisa que sempre ouvi e escuto até hoje é pra tentar ficar sem dormir o máximo possível pra assim regular o sono ou cansar bastante durante o dia pra chegar à noite e dormir. Nunca adiantou pra mim. Posso estar com o corpo e a mente completamente em estado de exaustão que não adianta nada. Houve um tempo em que em certos períodos do dia eu conseguia dormir com mais facilidade, como depois de amanhecer e de tarde. Já que o dia estava claro o suficiente pra eu não precisar de nenhuma luz artificial pra não ficar no escuro. Eu nunca consegui um sono de qualidade durante a noite, mesmo com remédios o meu sono “não pega no tranco”. É o período que eu mais tenho pesadelos e paralisias do sono. Eu praticamente acordo de hora em hora desesperada com alguma coisa. Nunca dura. Se eu dormir antes das 2 da manhã eu vou acordar sem sono algum no máximo às 3 da manhã (horário amaldiçoado).

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Já tomei tudo quanto é tipo de remédio, inclusive indutores de sono e sedativos e sempre acordo umas 2 horas depois quando o efeito passa. Isso quando não dá efeito contrário e ataca minha ansiedade de uma forma monstruosa. Hoje em dia a maioria nem faz mais efeito. Já passei pela clínica do sono algumas vezes e fiz vários exames procurando uma explicação. Já tentei coisas como chás, apometria, acupuntura, meditação, magnésio e melatonina. Já tentei também músicas que estimulam o sono. Já tentei magia negra. Bruxaria. Exorcismo.

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Não consigo mais dormir muitas horas seguidas independente do horário. O sono é sempre conturbado e acordo muitas vezes. Não preciso falar o quanto o sono é importante e essencial na vida e na saúde (mental e física) da pessoa e que o horário certo para se dormir é infelizmente à noite. Não digo certo por ser imposto e sim pela saúde do corpo mesmo. A pessoa começa a ter vários problemas depois de uma vida trocando o dia pela noite. Não é nada saudável. E eu não estou falando de dormir o dia todo e não ter sono à noite, estou falando em não ter sono nunca. E quando ele vem é frágil, não dura e traz perturbações.

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Não importa quantas horas eu durma, sempre acordo com a sensação de não ter dormido nada. Vivo num estado constante entre ter muito sono pra ficar acordada mas não o suficiente para dormir. Acho que é uma das piores prisões que já me enfiei.

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Quando eu tinha só depressão era um pouco mais fácil dormir, tudo era melhor do que ficar acordado, não que hoje não seja, mas hoje tem a ansiedade de brinde pra fazer o inferno acontecer na minha cabeça sempre que encosto ela no travesseiro. Acho que eu seria outra pessoa hoje se meu sono fosse normal. É difícil manter o humor estável, a sanidade, a vontade de viver e até se alimentar bem quando o sono não é bom. Eu fico pensando muito por horas, o cansaço é cada vez pior. Irritabilidade alta sempre. Hoje em dia parece que é um cansaço que nem se eu dormisse por 5 mil anos passaria. Parece um ciclo sem fim. Um pensamento atropela o outro. Penso em tudo e em nada ao mesmo tempo. É tanta coisa passando pela cabeça que não dá pra diferenciar uma da outra. E é assim toda vez que tento dormir. É desesperador. A insônia pra mim é um tipo de tortura. Pra quem não sabe, a insônia não é só não conseguir dormir. É também não conseguir manter um sono contínuo e acordar o tempo inteiro. Um cérebro insone é um dos mais paranoicos e criadores de teorias da conspiração (principalmente aquelas que conspiram contra si mesmo). Eu evito totalmente deitar e tentar dormir sem estar completamente esgotada e fechando meus olhos. Isso é tentar suicídio pra mim. A gente pode se matar várias vezes sem morrer durante toda a vida. Quando eu deito pra dormir e em uns 30 minutos ainda não consegui eu já logo procuro algo pra fazer pra não entrar na espiral do horror que a insônia causa. Na maioria das vezes falho e não só entro como mergulho nela de cabeça.

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Acordar é meio que uma afronta, é sempre horrível. Talvez por isso eu tenha tanta dificuldade pra dormir, inconscientemente. Pra não ter que acordar depois. Nosso cérebro é uma armadilha e nos prega peças o tempo inteiro. Quando eu tenho compromisso aí mesmo que nem com uma porrada na cabeça eu durmo. As horas passam rápido e devagar ao mesmo tempo e o desespero em ver elas passarem e ter cada vez menos tempo pra dormir é quase que viciante.

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O meu sono é tipo um gato arisco, o melhor a se fazer é não pensar nele, respeitar o espaço e ignorá-lo. Pra daí sim ele vir até mim quando sentir que está na hora. Quanto mais pensar e tentar chegar nele, mais ele vai se afastar. Eu já desisti de muitas coisas pra poder dormir. Quem dorme mal entende e valoriza muito o sono quando ele vem. Tem que agarrá-lo com todas as forças. Quem deita a cabeça no travesseiro e simplesmente dorme não sabe a sorte que tem (ou sabe, mas não valoriza por ser algo natural). Espero um dia ter essa sensação. Acho que pode transformar a minha vida. Tem gente que diz “dormir é tão bom que nem acredito que é de graça”, pra mim custa bem caro e pago duas vezes. Uma tentando dormir e outra acordando. Se eu pudesse escolher um superpoder eu escolheria sem dúvida o poder de controlar o sono, pra conseguir somar ele e guardar pra usar depois. Pra conseguir ter noites tranquilas. Sem interrupções, pesadelos e assombrações. Por enquanto a cura que eu mais acredito é a sugerida pelo Hitchcock. Tem o vídeo lá em cima do post.

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Já fiz um post sobre paralisia do sono. Link aqui.

E outro sobre sonhos aqui.

 

Tabacaria – Fernando Pessoa

Oi, hoje só quero deixar um poema aqui.

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê –
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco a mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.”

Álvaro de Campos, 15-1-1928

Esclarecimentos

Oi,

Estou escrevendo esse post pra quem gosta de mim e não pra quem só faz esforço pra apontar o dedo e jogar os outros na fogueira, porque esses não querem saber a verdade. Só querem continuar espalharando ódio.
Sempre existiu muita gente me odiando na internet pelos motivos mais banais possíveis, mas as coisas foram saindo de controle e agora são acusações graves como nazismo.
Por que eu nunca me pronunciei? Eu sou uma mulher adulta agora e na minha cabeça não faz o menor sentido ter que me  justificar por coisas de mais de 12 anos atrás. Eu tinha uma tattoo que fiz quando era muito nova de uma caveira que depois de algum tempo fui descobrir que era parecida com uma totenkopf que é um símbolo que foi usado pelos nazistas (mas não foi criado por eles, só se apropriaram como a suástica por exemplo).

“Por que eu nunca cobri ou removi a tattoo?” Justamente por ser uma caveira que tem outro significado na sua simbologia e pra mim nunca teve um significado relacionado ao nazismo. Eu adoro caveiras tanto que meu braço esquerdo é praticamente fechado só com caveiras e pra mim ela sempre foi só mais uma e nunca me trouxe problemas. Fora que nunca postei foto dela e simplesmente tiraram prints horríveis de vídeos em que ela é apenas um borrão e editaram no photoshop pra fazer uma montagem. Me encheram tanto o saco e inventaram tantas teorias e mentiras que eu acabei cobrindo a tattoo. Ainda inventaram por aí que tenho suásticas tatuadas e coisas do tipo. É um absurdo, já li tanta coisa sem noção sobre mim que sinceramente não sei de onde fantasiaram.

Eu sempre me interessei pela história de todas as guerras e revoluções no geral e desde nova li muito sobre todas essas coisas. Principalmente porque desde os meus 14 anos eu escuto black metal e nesse meio muitas bandas abordam essa temática. Tanto que quando tinha tumblr, postava bastante coisa sobre guerra e sobre filmes com esse tema.

Me relacionei com um “skinhead” no passado lá por 2005/2006, ele não era nazista, era outro tipo (se você não sabe, o verdadeiro skinhead não é nazista). Mas na época acabei conhecendo tudo que é tipo de gente. Quem é um pouco mais velho e conhecia esse rolê sabe que andava todo mundo misturado e era quase uma modinha. Conheço várias pessoas que andavam nesse meio e também morrem de vergonha. Hoje em dia falar isso parece absurdo, mas assim que era na época. Não permaneci nisso nem por 6 meses e faz mais de 12 anos. Uma época que eu estava meio perdida e queria pertencer a alguma coisa e acabei me enfiando em tudo quanto é tipo de grupo.
São coisas do meu passado que enterrei no fundo de mim e pra mim não existem mais. Nem existiram. Pessoas usando isso contra mim, me resumindo a esses poucos meses como se eu fosse assim me entristece demais. Pegam qualquer coisa que já falei na tentativa de me demonizar e fazer com que eu pareça algum tipo de monstro.
Tweets meus falando sobre chocolate branco, falando que não gosto de pegar sol, ironizando pessoas que me mandam pegar sol e coisas do gênero ou usando algum meme da época que hoje em dia é inadmissível. Já fiz muitos tweets agressivos mas sempre fazendo referência aos filmes de terror que gosto muito e misturando com atitudes que me incomodam. Levar para o sentido literal e usar isso pra fazer com que eu pareça uma pessoa horrível é de uma ignorância sem tamanho. Existe até um perfil fake no yahoo respostas falando absurdos usando meu nome. No meu tumblr tinha alguns posts sobre American History X que é um filme muito bom que passa uma mensagem de total arrependimento e anti nazista e grupos de ódio. Mas pegam só cenas totalmente fora de contexto e usam como se eu tivesse concordando com elas, sem explicar o sentido do filme.
Tenho um amigo que tinha uma coleção enorme de artefatos antigos de guerra e coisas do tipo e a gente sempre se vestia das coisas e tirava fotos. Que por sinal nunca foram postadas por não serem sérias. Hoje vi que divulgaram uma foto minha com uma faca dele de mais de 10 anos atrás. Ficam espalhando essa foto como se eu tivesse tirado fazendo algum tipo de apologia. Eu nunca postei essas coisas e nem agi da forma como estão tentando espalhar por aí. Muita gente me segue desde que criei meu Twitter (2010) e sabe que nunca me comportei dessa forma. Tenho sim tweets ácidos mas nunca sendo nazista ou racista. Estão me colocando no mesmo patamar nazistas declarados e assassinos. Juntaram várias coisas fora de contexto pra tentar me transformar em algo que não sou e nem nunca fui. Como se eu já tivesse ofendido ou agredido alguém. Eu nunca agredi uma pessoa. Nunca nem presenciei algo do tipo. Já inventaram até que apanhei sendo que nunca apanhei na vida nem dos meus pais. Eu acho um absurdo ter que explicar e expor essas coisas. Ter que ficar voltando sempre nessa parte da minha vida que passei uma borracha. Todo mundo tem o direito de não querer falar sobre certas coisas. Todo mundo tem algo que se envergonharia se fosse exposto. Se eu fosse uma pessoa que tivesse realmente esse posicionamento ou fizesse realmente mal a alguém, mas eu sempre me posicionei contra tudo isso. Não entendo de verdade o motivo de ficarem o tempo inteiro voltando e insistindo nisso que foi algo de mais de uma década atrás e que não tem nada a ver com o meu comportamento e nem com quem eu sou nos últimos 12 anos.

Eu não tenho mais muito o que dizer, por ser uma pessoa super introvertida e reservada já estou indo contra tudo que eu penso me justificando e expondo uma parte da minha vida que não gosto de lembrar e morro de vergonha. Mas a internet hoje em dia tá assim né? Lutam contra o “ódio” pregando mais ódio ainda.

 

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Autoestima

Oi,

Eu estava em dúvida entre fazer um vídeo ou um post sobre esse assunto e decidi fazer um post aqui porque acho que me expresso melhor escrevendo. É muito delicado e influencia diretamente no comportamento e na vida de todo mundo. A autoestima é um castelinho que a gente tem que construir com as nossas próprias mãos desde o começo. Na minha opinião a ajuda dos outros só serve pra alimentar o ego e talvez mascarar o que cada um pensa sobre si mesmo porque no fundo só o que a gente pensa quando está sozinho é o que realmente importa e pesa. Não adianta receber elogios e ouvir repetidamente dos outros o quanto tu és bom, bonito, inteligente, interessante se no fundo tu não acreditas nisso. É muito importante acreditar em si mesmo (cegamente) porque no mundo sempre vai ter gente querendo te desmerecer (muitas vezes tu mesmo) e tu precisas ser muito forte pra nunca deixar que isso te abale. Uma das coisas mais essenciais que todo mundo precisa aprender e levar para a vida é que cada um é especial da sua maneira. Não adianta se comparar e comparar sua vida com a vida dos outros porque isso é um veneno que vai te corroer por dentro e fazer com que tu nunca percebas o teu valor. Eu sempre digo que a pessoa não deve querer ser como a outra e sim buscar sempre ser a melhor versão de si mesma. Estamos em constante evolução e ficar se comparando com os outros só vai te atrasar, te frustrar muito e te deixar cada vez mais infeliz e insatisfeito. Eu sou uma das pessoas que se cobra muito e nunca acha que está bom o suficiente. Em todos os aspectos. Uma pessoa com autoestima boa vai ser sempre julgada e sempre vão tentar acabar com isso porque a maioria das pessoas não sabe lidar com alguém que se gosta e busca melhorar sempre. Acho que desde sempre deveria ser ensinado como é importante se amar e se valorizar em primeiro lugar. As pessoas estão crescendo cada vez mais influenciadas e longe delas mesmas. Os relacionamentos estão cada vez mais puxados para alimentar o próprio ego do que para o amor e crescimento mútuo. Não só amorosos, mas até em amizades. Não deixe nunca sua autoestima nas mãos de outra pessoa, ainda mais pessoas estranhas. Insegurança, falta de confiança em si mesmo e procura por aceitação é um ciclo muito fácil de entrar e difícil de sair. Quando a pessoa começa a enxergar o próprio valor fica impossível permanecer perto de quem não enxerga. A gente vive rodeado de pessoas que querem nos ver mal ou bem mas nunca melhor do que elas.

“That’s what real love amounts to – letting a person be what he really is. Most people love you for who you pretend to be. To keep their love, you keep pretending – performing. You get to love your pretence. It’s true, we’re locked in an image, an act – and the sad thing is, people get so used to their image, they grow attached to their masks. They love their chains. They forget all about who they really are. And if you try to remind them, they hate you for it, they feel like you’re trying to steal their most precious possession.”
-Jim Morrison

Quando uma pessoa se aceita, ela começa a aceitar os outros como realmente são. Sem julgamentos, sem jogar as próprias frustrações em quem não tem culpa. Sem idealizar pessoas perfeitas porque no fundo sabe que todo mundo tem falhas e passa pela mesma luta todos os dias. Não deixe nunca pessoas que não fazem nada por ti te controlarem de alguma forma. Se enxergue sempre pelos teus próprios olhos e não pelos olhos de quem não reconhece o teu valor. A mudança tem que começar de dentro pra fora. Nada adianta mudar sua casca se por dentro vai continuar da mesma forma. Mudando por dentro tudo por fora começa a mudar e a fazer sentido. Não existe segredo e nem receita de bolo. Não existe uma cura milagrosa. É uma construção diária que constantemente vai ser abalada por coisas externas. Principalmente nos dias atuais. Construa seu castelo e transforme ele numa fortaleza.

Beijos.